Cuiabá, 2026-10-27T04:44:41

Lula venceu, mas será que convenceu?

Lula venceu, mas será que convenceu?Entre Nós

POR: Diego Vilani

POSTADO EM: 26/10/2026

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Em um país dividido pelas urnas, a pergunta que fica é se os próximos quatro anos serão suficientes para transformar promessas de campanha em melhorias na vida dos brasileiros.

Acordamos nesta segunda-feira, 26 de outubro de 2026, com um presidente reeleito para seu quarto mandato. Luiz Inácio Lula da Silva venceu Flávio Bolsonaro no segundo turno, com uma diferença de pouco mais de 4,4 milhões de votos. Foram 51,79% dos votos válidos para Lula, contra 48,21% para seu adversário. A eleição terminou, os vencedores comemoram, os derrotados começam a reorganizar suas forças políticas e o Brasil se prepara para mais quatro anos de governo. Mas, passada a euforia das urnas, fica uma pergunta: vencer uma eleição significa, necessariamente, convencer uma população?

Na minha opinião, e faço questão de deixar claro que se trata da minha opinião, essa eleição trouxe um recado importante. Continuamos vivendo em um país dividido, onde direita e esquerda parecem disputar não apenas o poder, mas também quem tem mais razão sobre o futuro do Brasil. E, enquanto essa disputa acontece, a população segue tentando resolver os problemas de sempre.

Mais uma vez, acompanhamos uma campanha recheada de promessas, discursos empolgantes e soluções que, de tão fantásticas, parecem capazes de resolver os problemas do país com um passe de mágica. É como se bastasse vencer a eleição, assumir o cargo e, pronto, tudo começasse a funcionar. O salário renderia mais, o supermercado ficaria mais barato, os combustíveis teriam preços justos e os serviços públicos melhorariam. Mas acredito que não será bem assim. Infelizmente. E vou explicar o porquê.

Sou um cidadão comum, como a grande maioria dos brasileiros. Tenho contas para pagar, despesas com água, energia elétrica, internet, supermercado e combustível. Preciso trabalhar, organizar o orçamento e fazer escolhas para que o dinheiro seja suficiente até o fim do mês. E, pelo menos na realidade que acompanho aqui na minha cidade, não vi essa redução generalizada dos custos que tantos brasileiros esperavam depois das promessas feitas nas eleições de 2022.

Vou dar um exemplo bem simples. Tenho um carro de 2005, movido a gasolina, que utilizo para trabalhar e ajudar a garantir a renda da minha família. Em outubro de 2022, o preço médio nacional da gasolina comum girava em torno de R$ 4,80 a R$ 4,90 por litro, conforme os levantamentos da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Na campanha daquele ano, Lula defendia a necessidade de “abrasileirar” os preços dos combustíveis, reduzindo a dependência das oscilações internacionais. Era uma proposta que despertava esperança em quem precisava abastecer o carro toda semana.

Quatro anos depois, a realidade é outra. Em outubro de 2026, a média nacional da gasolina estava em aproximadamente R$ 6,53 por litro, segundo levantamento da ANP. E, nos postos que encontro na minha rotina, vejo placas anunciando valores entre R$ 6,97 e R$ 7,17. Sei que os preços variam de uma cidade para outra e que existem fatores como impostos, custos de distribuição, produção, importação de derivados e oscilações do mercado internacional. Não estou ignorando nada disso. Mas, para quem precisa abastecer, a conta é muito mais simples: quantos litros consigo colocar no tanque com o mesmo dinheiro?

E, por incrível que pareça, eu entendo que governar é muito diferente de fazer campanha. Uma coisa é subir em um palanque e prometer mudanças. Outra, bem diferente, é conseguir colocá-las em prática. Existem projetos que precisam passar pelo Congresso, decisões econômicas que dependem de fatores externos, limitações orçamentárias e negociações políticas. O presidente não governa sozinho, seja ele de esquerda, de direita ou de qualquer outra posição política. Mas também acredito que quem faz uma promessa precisa estar preparado para ser cobrado por ela.

E não é apenas a gasolina. É a conta de energia, a água, os produtos do supermercado e até aquelas comprinhas feitas pela internet. Quem não se lembra da discussão sobre a taxação das famosas “blusinhas” da Shein e da Shopee? Uma medida que virou assunto nacional, pesou nas decisões de compra e colocou mais uma vez o consumidor no centro de uma disputa política. Mudanças nas regras e nos impostos podem ser apresentadas como medidas econômicas necessárias ou como alívio para a população, mas é natural que o cidadão questione por que determinadas decisões são tomadas e quais interesses realmente atendem. Principalmente quando o calendário eleitoral se aproxima.

E veja bem: não estou dizendo tudo isso porque considero Lula e a esquerda os vilões da história. Não penso assim. Aliás, tenho minhas dúvidas se a situação seria tão diferente caso a direita tivesse vencido. Não porque os projetos políticos sejam iguais, mas porque os obstáculos para governar continuariam existindo. Nenhum presidente tem uma caneta mágica capaz de resolver sozinho os problemas do Brasil. E, infelizmente, muitas vezes a disputa política parece ser mais importante do que a solução desses problemas.

Basta acompanhar o que acontece em Brasília. Projetos que passam meses em discussão, propostas que enfrentam resistência, comissões que se prolongam e votações que se transformam em verdadeiras batalhas partidárias. É evidente que o debate faz parte da democracia e que nem toda discordância representa falta de compromisso com a população. Mas também não dá para ignorar que existem negociações políticas nas quais cargos, espaços de poder e interesses partidários ganham um protagonismo difícil de justificar diante das necessidades do país.

E me desculpem, mas quando vejo determinadas disputas, confesso que uma frase me vem à cabeça: “Dane-se o povo, eles podem esperar. Primeiro vamos resolver os interesses do partido, negociar mais espaço no governo e, quem sabe, até garantir um ministério”.

Pode parecer uma crítica dura. E é mesmo. Porque acredito que a política deveria ser o caminho para resolver os problemas da população, e não um jogo permanente em que vencer o adversário vale mais do que entregar resultados.

Voltando às eleições, Lula venceu o segundo turno de forma democrática e legítima. Isso precisa ser respeitado, independentemente da preferência política de cada um. Mas o resultado também mostra um país dividido, com quase metade dos votos válidos destinados ao candidato derrotado. É um sinal de que o desafio do presidente reeleito vai muito além de conquistar mais quatro anos no Palácio do Planalto. Será preciso governar para todos, inclusive para aqueles que não votaram nele.

E existe outro ponto que considero fundamental. O eleitor não escolheu apenas o presidente. Também elegeu governadores, senadores, deputados federais e estaduais. O novo Congresso terá diferentes forças políticas, interesses regionais e partidos que precisarão negociar cada decisão importante. Por isso, não podemos colocar toda a responsabilidade pelo futuro do Brasil apenas nas mãos de quem ocupa a Presidência da República.

Aliás, quero fazer uma sugestão bem simples. Você se lembra em quem votou para deputado federal e senador? Então anote os nomes em um papelzinho e coloque na porta da geladeira. Isso mesmo, na geladeira, naquele lugar onde ficam os recados importantes da família. Porque esses políticos também foram escolhidos por você. Estão em Brasília para representar seus interesses, discutir leis, fiscalizar o governo e tomar decisões que afetam diretamente a sua vida. E precisam ser cobrados, não apenas lembrados de quatro em quatro anos.

A democracia não termina quando a urna é fechada. Pelo contrário, é justamente depois da eleição que começa a parte mais importante: acompanhar, fiscalizar e cobrar aquilo que foi prometido.

Também me preocupa a relação entre os Poderes e a confiança da população nas instituições. Temos um ambiente político marcado por conflitos, questionamentos e uma permanente disputa de narrativas. O Judiciário, que deveria ser reconhecido como uma referência de equilíbrio e segurança jurídica, também enfrenta críticas e desconfiança de parte da sociedade. Não acredito que enfraquecer as instituições seja a solução. Mas acredito que recuperar a confiança dos brasileiros nelas é um desafio que não pode ser ignorado.

E agora? O que nos espera?

Temos mais quatro anos pela frente. Quatro anos de um presidente que fez promessas durante a campanha, de um Congresso com diferentes forças políticas, de negociações, disputas e decisões que poderão melhorar ou dificultar a vida de milhões de brasileiros.

Não tenho como afirmar que tudo dará errado. Seria injusto e precipitado. Também não consigo acreditar que todas as promessas serão cumpridas. O que tenho são dúvidas, expectativas e a esperança de que o país consiga avançar, independentemente de quem esteja no poder.

Porque, no fim das contas, enquanto os vencedores comemoram e os derrotados planejam as próximas eleições, a vida continua. Amanhã preciso levantar, trabalhar, abastecer meu carro de 2005, passar no supermercado e encontrar uma maneira de pagar as contas que continuam chegando. E tenho certeza de que milhões de brasileiros estarão fazendo exatamente a mesma coisa.

Não quero um Brasil melhor apenas nos discursos. Quero um Brasil melhor na prática. Um país onde o trabalhador perceba que seu dinheiro rende mais, onde as famílias tenham acesso a serviços públicos de qualidade e onde as decisões políticas sejam tomadas pensando primeiro nas pessoas, não nos partidos.

Se vamos melhorar de vida nos próximos quatro anos, ainda não sei. Se Lula conseguirá entregar aquilo que prometeu, o tempo dirá. Se o Congresso vai colaborar com projetos importantes ou transformar cada votação em uma nova disputa de poder, também teremos que acompanhar.

Só existe uma certeza: daqui a dois anos teremos novas eleições, desta vez para prefeitos e vereadores. Novamente veremos discursos, promessas, abraços, apertos de mão e candidatos garantindo que sabem exatamente como resolver os problemas da população.

Até lá, espero que a gente tenha aprendido uma coisa: ganhar uma eleição é importante para quem disputa o poder. Mas convencer, com trabalho e resultados, é muito mais importante para quem depende das decisões de quem venceu.

Lula venceu. Agora, resta saber se vai convencer.

Diego F Vilani
Publicitário
diegovilani@hotmail.com

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