Cuiabá, 2026-03-07T03:21:11

De geração em geração

De geração em geraçãoArtigos

POR: Redação

POSTADO EM: 19/01/2026

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O que fazemos com o que recebemos

Ninguém começa do zero.

Quando chegamos, o mundo já estava em movimento, as histórias em curso, os afetos em desalinho e os silêncios bem organizados.

Antes do primeiro choro, já existe uma herança.

Gestos, medos, crenças, amores e ausências nos aguardam em silêncio.

Cada nascimento é apenas mais um elo visível de uma corrente antiga.

Ela é longa o suficiente para atravessar o tempo e curta o bastante para nos alcançar, mas agora nos encontramos.

Nascimento

Interessante pensar que a nossa primeira roupinha fofinha, foi escolhida por alguém.

Assim será também com nossa última vestimenta, escolhida por alguém da família ou um profissional.

Mas antes do momento final, existe uma vida.

Emoções, aprendizados, ensinamentos, laços, segredos, troca e tudo mais que dá forma a esta passagem por aqui.

Dia a dia vamos entendendo o que devemos fazer para comer, para se livrar das caquinhas e por aí vai.

Modelos, padrões e comportamentos, nos são servidos com talheres de prata.

E assim vamos construindo nosso emaranhado de reações.

Infância

A infância não começa em branco. Começa habitada.


Habitada por olhares, gestos, silêncios e feridas que não são nossas, mas nos atravessam mesmo assim.

Criança aprende rápido. Aprende observando. Aprende sentindo. Aprende sobrevivendo.

Repete o tom de voz que escuta, o medo que percebe, a dureza que não entende.

Não há maldade consciente. Há reprodução.

O que chega torto é devolvido torto, sem filtro, sem intenção, sem defesa.

No recreio, as histórias se cruzam. Pais viram medidas. Lares viram comparação.
E, sem perceber, começamos a nos perguntar se somos menos, mais ou errados.

Assim se formam os primeiros contornos do mundo.
Regras não ditas. Comportamentos aceitos. Limites invisíveis.
Tudo passando de mão em mão, de geração em geração.

Adolescência

E lá vamos nós, ocupando o banco do motorista da vida com o corpo emprestado e a certeza absoluta de que sabemos tudo.

A casa ainda é dos pais, as regras também, mas a convicção é nossa. Alta, barulhenta e perigosamente confiante.

Rimos dos conselhos, aceleramos onde não conhecemos o caminho e chamamos de coragem o que, muitas vezes, é só pressa.

Só mais tarde entendemos que inteligência não era rebeldia, e liberdade não era desobediência.

A realidade vem sem aviso. Não pede licença. Encosta nosso rosto no concreto e ensina do jeito que sabe.

E seguimos, com as asas de Ícaro presas às costas, voando baixo demais para sermos livres, alto demais para não cair.

Mente em formação. Coração aberto. Quase nenhuma noção do perigo.

Adultos

É aqui que o jogo fica sério.

Com o corpo crescido e as decisões nas mãos, passamos a chamar de escolha aquilo que muitas vezes é apenas hábito antigo.

Construímos a vida com os materiais que recebemos. Alguns sólidos. Outros trincados. Muitos herdados sem manual de instrução.

Defendemos ideias como se fossem nossas, sem lembrar de onde vieram.
Repetimos frases, valores e julgamentos com a convicção de quem acredita estar certo, não de quem parou para revisar.

Cada adulto carrega uma corrente invisível.
Uns a usam como apoio. Outros como prisão.

Poucos param para perguntar se ainda precisam dela.

Liberdade, aqui, não é romper tudo. É reconhecer o que foi recebido e decidir, conscientemente, o que continua e o que termina.

Os avós

Aqui entramos num outro ritmo, não há mais pressa, há presença.

Quem chegou até aqui já foi tudo o que poderia ser. Filho, pai, teimoso, forte, frágil. Agora é memória em carne viva.

As marcas ficam expostas na pele, nas mãos, no jeito de sentar, no olhar que demora mais do que antes.

O que antes era fácil agora exige cuidado. O que antes era urgente agora espera.

Desprovidos de tempo, valorizam o encontro. A conversa sem distração. O toque que ainda reconhece.

Vozes amadurecidas que ainda podem ecoar pelos nossos tímpanos.

Em breve, serão apenas um sussurro trazido pelo vento.

E então, silêncio.

Sem toque.
Sem palavras.
Só lembrança.

Futuro

Você está agora viajando no tempo, o próximo segundo já é o futuro. Cada palavra lida, é um passo em direção a ele.

Não importa em que fase da vida você esteja. Saiba que você é precioso (a). Sem você o mundo com certeza seria muito mais chato.

Então pare de frescura. Olhe para os seus que ainda estão por aqui. Observe-os na profundidade.

Escute suas histórias, aprenda com elas.

Vamos promover um levante. Basta dizermos não ao abandono, à indiferença, ao distanciamento.

Sem eles não estaríamos aqui, e isso apenas basta.

Tá fazendo o que? Liga para sua avó ou avô, agora. Mãos à obra, o mundo só muda com ações.

Oi mãe, te amo, tenho orgulho de ser seu filho.

Sua benção.

Luiz Fernando Fernandes é jornalista em Cuiabá, palestrante, terapeuta holístico, escritor, mentor e criador do Protocolo do Lobo.

@luizfernandofernandesmt

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