Saques de R$ 15,6 milhões no TCE-MT pararam após abordagem da PF, aponta investigação
Política POR: Diego Vilani
POSTADO EM: 03/11/2026
A Polícia Federal identificou uma mudança no padrão de saques em dinheiro vivo realizados em duas contas bancárias do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), Sérgio Ricardo de Almeida. Segundo a investigação, as retiradas foram interrompidas após uma diligência policial realizada em outubro de 2025 na agência do Sicoob instalada nas dependências do próprio tribunal. Para os investigadores, a alteração pode indicar um recuo estratégico, hipótese que ainda precisa ser esclarecida.
Entre 1º de janeiro e 22 de outubro de 2025, as duas contas registraram R$ 15,6 milhões em saques. Uma comunicação de operações suspeitas referente ao período de janeiro a setembro contabilizou 144 retiradas, que somaram R$ 14,1 milhões. Os números fazem parte dos documentos analisados pela Polícia Federal no âmbito da Operação Tomada de Contas, deflagrada em 29 de outubro de 2026.
O episódio considerado decisivo ocorreu em 14 de outubro de 2025. Naquela data, policiais federais realizavam uma diligência discreta na agência bancária para acompanhar movimentações financeiras relacionadas ao caso. Durante a ação, os investigadores observaram operações envolvendo Roseli Loss, então chefe de gabinete de Sérgio Ricardo, e Adriangelo Barros Antunes, servidor ligado ao tribunal.
Conforme os registros reunidos na investigação, Roseli realizava os saques no caixa, enquanto Adriangelo recolhia o dinheiro. Ao tentar acompanhar o servidor pelos corredores do complexo do TCE-MT, um dos policiais foi abordado pela equipe de segurança interna da instituição. A situação comprometeu o sigilo da diligência e levou ao encerramento do acompanhamento.
Imagens das câmeras de segurança da agência foram posteriormente analisadas pela PF e utilizadas para identificar a participação dos dois em diferentes retiradas. A partir desse episódio, os investigadores observaram uma interrupção abrupta dos registros de provisionamentos e saques em espécie vinculados às contas de Sérgio Ricardo, ao menos no conjunto de informações examinado.
A Polícia Federal considera a data um marco na apuração. No entanto, os documentos não comprovam que os envolvidos tenham tomado conhecimento de que estavam sendo monitorados. A possibilidade de que a abordagem tenha provocado a mudança no comportamento financeiro é uma linha investigativa, e não uma conclusão definitiva.
As movimentações voltaram a aparecer nos registros em 2026. Em fevereiro, foram identificados dois provisionamentos de R$ 400 mil para saques, mas não houve comunicação de retiradas correspondentes. Em maio, houve registro de um saque de R$ 100 mil no dia 11. Para 14 de maio, também foi provisionada uma retirada do mesmo valor, sem confirmação de que o dinheiro tenha sido efetivamente sacado. Imagens das duas datas mostram Roseli novamente realizando operações no caixa.
O caso integra uma investigação mais ampla sobre possíveis irregularidades em contratos administrativos, pagamentos e movimentações financeiras no Tribunal de Contas. A Operação Tomada de Contas foi autorizada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e resultou em prisões preventivas, mandados de busca e apreensão e outras medidas cautelares.
A Polícia Federal apura suspeitas de crimes contra a administração pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Entre os pontos investigados estão saques recorrentes em espécie e possíveis relações entre pagamentos realizados pelo tribunal, movimentações bancárias e retiradas de grandes quantias.
A identificação de saques milionários e a mudança no padrão das operações são elementos reunidos pelos investigadores para esclarecer a origem e a destinação dos recursos. Os registros bancários, isoladamente, não comprovam a prática de crimes. A responsabilidade de cada investigado e a eventual existência de irregularidades deverão ser apuradas no curso do procedimento, com respeito ao direito de defesa e à presunção de inocência.
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